segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Resenha: Paddy Clarke Ha ha ha

No meu tempo, a maior dose de adrenalina era tocar a campainha e sair correndo antes que alguém me visse. Olha só uma das inúmeras doses de Patrick e seus amigos:

"— Largaram!
Esse foi o último comentário de Aidan.
O primeiro obstáculo era fácil. O muro entre o jardim de McEvoy e da Sra. Byrne. Não havia cerca-viva por cima do muro. Você precisa se concentrar para ter certeza de que havia espaço suficiente para movimentar as pernas no pulo. Alguns de nós conseguiam pular sem tocar o muro de jeito nenhum — eu podia —, mas era preciso um montão de espaço para isso. Atravessamos o jardim da Sra. Byrne, aos berros. Era parte do jogo: tentar ferrar os retardatários, chamando a atenção do dono da casa. Sair da grama, pular o canteiro através do passeio, pular o muro — a cerca-viva. Subir no muro, se equilibrar na cerca-viva, pular no chão do outro lado. Perigo, perigo. O jardim de Murphy, uma porção de flores. Chutar algumas. Rodear o carro. Cerca-vivas antes antes do muro. O pé no pára-choque, pular. Aterrissar na cerca, rolar para o outro lado. Nossa casa, a próxima. Rodear o carro, sem cerca-viva, só o muro pular. Sem gritos, sem folego para gritar. O pescoço cocando por causa das folhas e espinhos na cerca-viva. Mas duas cercas enormes e pronto. Uma vez, o Sr. McLoughlin estava cortando a grama quando pulamos todos no jardim dele. Ele quase teve um ataque do coração.
Subimos o último muro, do Sr. Hanley. Pernas retas. Era muito mais dificil agora. Mortos de cansaço. Pular a cerca, rolar na grama, correr para o portão.
O vencedor!"


Uffa! Acho que já deu para sentir o tanto de adrenalina e energia que esses garotos tem. Patrick e um  menino bastante criativo, com uma imaginação, curiosidade e sede de conhecimentos incríveis!
Muitas de suas brincadeiras são tiradas dos livros, assim como Da telinhas, o nosso protagonista parece se amarrar em um perigo.

Patrick tinha muitas aventuras, uma dela  era bem parecida com uma das minhas travessuras: até os sete anos, eu tomava Mucilon  na mamadeira, (não riam, afinal quem nunca teve algo no qual custara a largar na infância?)
Eu costumava pegar todas as minhas mamadeiras e depois de caçar tanajuras, as colocavas lá dentro, fazendo assim uma fazendinha. O mesmo eu eu fazia, construindo casa de lego para um bichinho conhecido aqui, como viuvinha.

Vamos para Patrick: "abelhas, se pudéssemos pegá-las. Chacoalhávamos o vidro para ter certeza de que a abelha estava zonza, quase morta, ai virávamos o pote de cabeça para baixo antes que ela pudesse acordar. A gente ajustava a abertura do pote para que a abelha caísse bem no meio do buraco feito no piche. Depois a gente empurrava com o palito. A abelha grudava no piche. Ficávamos de olhando. Era difícil de saber se ela sofria. Ela não fazia barulho, nem zunia, nem nada. Partíamos a abelha no meio e a enterrávamos no piche. Eu sempre deixava um pedacinho da abelha para fora para servir de exemplo para as outras. As vezes a abelha se safava.. Nao estava zonza demais quando a gente virava a jarra. Voava antes de cair no chão. Voava antes de cair no chão. Nao tinha importância. Não tentávamos pegá-la. Abelhas podiam matar a gente; não de propósito, só se não tivessem escolha. Vespas eram diferentes. Elas te picavam com vontade. Um cara em Raheny engoliu uma abelha por acidente, ela o picou na garganta e ele morreu sufocado. Estava correndo com a boca aberta e a abelha voou direto para sua boca. Quando ele estava morrendo, abriu a boca para dizer as últimas palavras e a abelha saiu voando. Por isso e que eles descobriram o que tinha sido. A gente punha flores e folhas da jarra para que as abelhas se sentissem em casa. Nao tínhamos nada contra ela. Elas faziam mel.

Qual a sua maior mentira contada só para não ter que comer sua salada quando criança? Rsrsrsrs


"— Um cara foi de férias para África.
— Ninguém vai para África de férias.
— Cala boca.
Quando ele estava lá, comeu salada e, quando voltou para casa, começou a sentir dores no estômago e foi levado para o hospital da rua Jervis porquê gritava de dor — puseram-no num Táxi. O médico nao sabia o que ele tinha e o menino nao conseguia dizer porquê nao parava de gritar por causa da dor; então eles tiveram que operá-lo e, quando abriram sua barriga, acharam um monte de lagartos dentro dele, na barriga, vinte ao todo; tinham feito um ninho. Os lagartos estavam lhe devorando o estômago.
— Você vai comer a salada mesmo assim — disse mamãe.
— Ele morreu — eu disse. — O menino morreu.
— Coma tudo, vamos. A salada foi lavada.
— Mas o negócio que ele comeu também estava.
— Isso e besteira que alguém andou lhe contando — disse ela. — Não devia dar ouvidos a isso.
Quis morrer. Mas queria ficar vivo até papai chegar em casa, ai lhe contaria o que tinha acontecido e depois morreria.
Os lagartos foram postos numa jarra no hospital, na geladeira, para que todo mundo que estivesse treinando para ser médico pudesse vê-los. Todos eles numa mesma jarra. Boiando num líquido que os mantinha frescos."



Sim... Foram muitas aventuras, as de Patrick, seu irmão Simbad e seus amigos, acredito que todos principalmente os garotos, se identificaram confesso ter me identificado com algumas delas...mais quando saber o momento de parar e crescer?
Curioso? Então embarque na história de Paddy Clarke Ha ha ha.


Considerações Finais:

Roddy Doyle ousou recriar a infância de uma maneira soberba e não bastando, o narrador e  Patrick que com apenas 10 anos, e quem nos prestigia contando a sua história, mas não uma história qualquer e sim a sua visão dela. Inspirado em O Senhor das Moscas, livro preferido do escritor e que ele teve oportunidade inclusive de ensiná-lo para seus alunos, faz com que acabe nos presenteando com a mente de um garoto irlandês do final dos anos de 1960. O Senhor das Moscas segundo o escritor, se tornou o enredo da sua vida e uma fonte de inspiração ousada: em O Senhor das Moscas e a ausência de adultos; em Paddy Clarke Ha ha ha e a presença deles.

Vocês devem está se perguntando porquê a minha resenha está tao fora do meu tipico padrão atual, intenso, desordenado. Assim como a mente de Patrick.

Os distúrbios causados entre uma criança que convive com a violência, o desejo de proteger, em vão.
Se você acha que irá encontrar neste livro uma narração, estruturação comum, prepare-se, pois está obra, vencedora do prestigioso Man Booker Prize de 1993, nos traz muito mais do que aventuras de crianças, muito mais do que nos transportar para lá ou para nossa própria infância, Paddy nos faz refletir o que uma família desestruturada pode fazer com a cabeça de uma criança.


Lindaia Campos