quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Resenha: o Escravo de Capela



O que uma fazenda pode esconder? Quem aqui não se lembra de alguns dos inúmeros contos, baseados em fábulas portuguesas e africanas que apesar de terem dado origem a mitos arrepiantes sobre criaturas das florestas, acabaram se tornando histórias fofas, infantis, a exemplo do Saci, Curupira, Mula sem cabeça, outros.

A proposta do autor Marcos DeBrito ao produzir essa trama maravilhosa e surpreendente foi reaver o terror perdido da nossa mitologia e até mesmo criar um naqueles que passaram a vida inteira embalada apenas com as fabulas contadas por Monteiro Lobato.

Recriando um Brasil colonial do final do século XVIII, utilizando-se de parte de registros de uma época, O Escravo de Capela irá fazer você embarcar num mundo sombrio, onde o sobrenatural se torna mais verossímil com toda certeza.

No ano de 1792, no auge da era colonial Brasileira, a produção de açúcar nas fazendas de cana era um dos negócios mais rentáveis da época, alem de ser controlada pelas mãos nada piedosas dos senhores de engenho no qual usava homens acorrentados, dilacerados suassem em seus canaviais em enquanto a elite gozava de toda pompa possível na casa grande.
Antonio feitor da fazenda Capela e filho do grão-senhor da fazenda Batista, aos trinta e cinco anos era de longe o segundo mais temido pelos escravos da fazenda. Sua falta de controle e a severidade de seus castigos, não desmerecendo o seu imenso prazer em cometê-los vinha trazendo prejuízos a fazenda, diminuindo sua mão de obra, o que não agradava em nada seu pai.


- Escravo aqui só tem direito a duas coisas – continuou: - Primeiro: não ter direito a nada! E segundo: não reclamar desse direito. Se tem negro que discorda, para quem ainda não sabe, domesticar os selvagens é a função pela qual tenho mais apreço.”



Ele é tão mal gente, que condenara um de seus escravos a passarem o resto da vida sem o movimento das pernas. Totalmente contrário a natureza de seu irmão caçula Inácio que apesar de herdeiro disso tudo, cultivava o direito de que todos os seres humanos devem ser tratados de forma igual, de forma humana. Batista em meio a essa batalha de controlar a impetuosidade de seu primogênito e convencer o caçula a assumir o controle da fazenda, todos viveram momentos de muito terror onde a morte com certeza será o inicio para algo totalmente assustador que lhe prenderá do inicio ao fim.

Recriando uma de nossas fábulas desde a origem, construindo sua mitologia de forma adulta, o autor conseguiu criar uma narrativa não somente tenebrosa de vingança com elementos reais e perversos, não é muito mais do que isso.
Sendo uma releitura do nosso Saci, aqui o capuz vermelho, sua marca mais conhecida é deixado de lado para que o rosto de um escravo-cadáver seja encoberto pelo sudário ensanguentado de sua morte, usado como instrumento principal para uma trama espetacular de vingança, parabéns Marcos foi perfeito.

Vale a pena conhecer essa trama que reconta um pouco da história do Brasil, nos faz brotar dentro de si e até talvez reencontrar o medo perdido da lenda original, e tudo isso em um enredo repleto de surpresas e reviravoltas.